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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

POTIGUAR DE 11 ANOS DA CIDADE DE BOM JESUS, GANHA MEDALHA BRASILEIRA DE OURO NA LÍNGUA PORTUGUESA EM CORDEL

Potiguar Davi Lima, de 11 anos, com professor durante a premiação da Olimpíada de Língua Portuguesa. — Foto: Cedida

A feira, a religiosidade e o cotidiano da pequena Bom Jesus, cidade distante cerca de 45 quilômetros de Natal, foram as inspirações do poeta Davi Lima, de 11 anos, para o cordel que ganhou medalha de ouro na final da Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa, neste mês, em São Paulo. O garoto foi o único representante potiguar a alcançar o ouro, entre todas as categorias. O tema central era o local de origem da cada participante. 

O responsável pela vitória do estudante da Escola Estadual Natália Fonseca foi o professor João Soares Lopes, que falou da competição para os alunos e incentivou a participação deles. Ao todo, 11 crianças prepararam textos e participaram da etapa escolar. Davi foi o vencedor na instituição, no município, no estado e, por fim, chegou à semi-final e final, realizadas na região Sudeste. "Quando o professor disse que a gente tinha sido selecionado, não acreditei", afirmou o garoto, que se emocionou ao receber a premiação. 

Apesar do incentivo da escola, a participação da família também foi fundamental na formação do garoto. Desde os quatro anos de idade, Davi sobe aos palcos junto com o pai, o poeta Jadson Lima, para recitar poesia de cordel. A escrita veio depois, com seis ou sete anos, segundo ele mesmo conta. O jovem faz parte de um grupo de poetas mirins que quer preservar a cultura no interior do estado. 

"É uma brincadeira, mas que não deixa de ser uma responsabilidade de manter. É uma arte popular muito bonita, além de ser de família", afirma. 



Davi Lima e o professor João Soares Lopes com os demais participantes da Olimpíada de Língua Portuguesa. — Foto: Cedida 
A poesia foi escrita no estilo "galope à beira-mar", que contém estrofe de dez versos de onze sílabas. Apesar da tradição familiar, que remete ainda a um tio-avô e ao seu bisavô, o menino garante que não faz poesia por obrigação. O pai, Jadson Lima, corrobora. 

"É uma sensação que eu não sei explicar, ver um filho ganhando uma Olimpíada da Língua Portuguesa com a poesia de cordel. É arretado. Antigamente a gente ouvia dizer que os filhos são espelhos do pai. Não é uma regra, mas eu acho legal, bom demais, ter ele nesse caminho. Pena que nossa poesia muitas vezes não recebe o valor devido", afirmou. 

Ao passarem para a final, Davi e o professor ganharam um leitor de livros digitais, cada um. Na final, além da própria medalha, o estudante ganhou uma viagem nacional para lazer, enquanto o professor vai receber uma viagem internacional para participar de um congresso na área de educação. 

Confira a poesia

Nos dez de galope lá no meu lugar (Davi Lima) 

Lá por detrás das árvores, vinha o sol
Iluminando a rua de minha casa
O astro esplendido quente feito brasa
Levantava no céu feito um farol
E o belo cantar de um rouxinol
Que eu acordei só pra escutar
E por alegria começou a cantar
Na caveira do boi ele fez o seu ninho
Comida trazia pro seu filhotinho
Nos dez d galope lá no meu lugar.

Vendo o sol nascer, botei uma veste
E tive a ideia de escrever em rima
E muito prazer eu sou Davi Lima
Sou de Bom Jesus, daqui do nordeste
Também sou poeta, Antônio é meu mestre
O poeta que sempre me faz inspirar
Com muita alegria eu vou retratar
O amor que tenho pelo meu sertão
E vou escrevendo com muita emoção
Meu lugar que amo, e sempre vou amar.

Perto de Natal, capital do estado
Se chama Bom Jesus, ô nome bonito
E por Frei Damião esse nome foi dito
De um povo ordeiro e bastante educado
Se fores pra lá ficarás encantado
Alegria nas rimas sempre irei botar
E na nossa feira comecei andar
Falei com os feirantes com grande harmonia
E vou caminhando com muita alegria
Essa que é a feira lá do meu lugar.

Saindo da feira eu fui lentamente
E para igreja agora estava indo
Olhei para mesma, alegre, sorrindo
E meus versos fluindo da alma, da mente
Com muito cansaço sentei no chão quente
Olhando a igreja comecei orar
Pedindo para Deus me abençoar
E sob o sol ardente segui minha jornada
Com Deus me guiando nessa caminhada
É a fé que me guia nesse meu lugar.

A água corria por baixo da ponte
E a brisa fria batia em meu rosto
De felicidade fiquei inteiro posto
Que de alegria aquilo era a fonte
Eu olhei atento para o horizonte
Vi que o sol estava pronto pra deitar
E na água fria eu fui me banhar
Olhei pro arrebol com concentração
Minha Bom Jesus é a inspiração
Deu fazer galope lá no meu lugar.

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