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sábado, 11 de janeiro de 2020

IRANIANOS ESTÃO INDIGNADOS COM REVELAÇÃO DE QUE PAÍS DERRUBOU AVIÃO DA UCRÂNIA

Foto: AFP

A revelação de que o avião da Ukraine Airlines foi abatido por um míssil iraniano pegou de surpresa e provocou choque na população local. Muitos criticaram o envolvimento das forças militares nacionais no episódio, que resultou na morte de 176 pessoas, quase todos cidadãos do Irã. Mais que isso: houve indignação por conta da demora do governo em reconhecer sua culpa. Estudantes universitários desafiaram a tradicional truculência do regime e realizaram uma manifestação no fim da tarde deste sábado (horário local).
Por meio de comunicado lido pela televisão estatal na manhã deste sábado, o presidente Hassan Rouhani afirmou que uma investigação do Alto Comando das Forças Armadas apontou para “erro humano” no disparo do míssil que atingiu a aeronave. O chefe do governo também vinculou o episódio ao momento de tensão vivido com os Estados Unidos naquele dia, que deixou as Forças Armadas em alerta total para um possível ataque americano. Rouhani informou que os culpados serão investigados e processados e enviou condolências para os familiares das vítimas e para a população iraniana.


O chanceler Mohammad Javad Zarif usou suas redes sociais para manifestar “arrependimento e desculpas” pelo erro humano que resultou na queda do avião.
Centenas de estudantes se reuniram em frente à Universidade AmirKabir para protestar contra o governo – vale ressaltar que sábado é o primeiro dia útil da semana no calendário iraniano, portanto dia letivo. O grupo entoou diversos gritos contra o governo e chegou a pedir mais que a renúncia de Rouhani: “Renúncia não é suficiente; julgar é necessário”, gritaram os estudantes. No fim da tarde, o grupo foi disperso com bombas de gás jogadas por forças de segurança. Em outro protesto, na faculdade Sharif, novamente centenas de alunos de reuniram e chegaram a pedir a renúncia do líder máximo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei. Os universitários chegaram a rasgar um grande pôster com a foto do general Qassem Soleimani, assassinado em um ataque norte-americano, em Bagdá.
O protesto acontece após um dia praticamente inteiro de raiva silenciosa por parte dos iranianos. Nas ruas de Teerã, a população evitava falar a respeito do assunto. A reportagem do GLOBO interpelou pessoas na movimentada região do Tajirish, grande centro comercial no Norte da capital, a respeito do pronunciamento. No entanto, as conversas eram interrompidas quando os interlocutores escutavam as palavras “rusnomenegar” (transliteração do farsi que significa jornalista) e “ravopeimã” (avião).
As reações ao episódio estavam presentes nas redes sociais, onde pessoas usam contas anônimas para discutir questões mais delicadas, especialmente política. Em geral, os usuários usam apenas seus primeiros nomes ou apelidos, ao lado de fotos de costas, com as mãos escondendo os rostos, de paisagens ou mesmo de personalidades famosas (atores de cinema, atletas, cantores). Foram essas pessoas que relataram ao GLOBO seus sentimentos, embora pedissem absoluto sigilo sobre suas identidades.
O jovem engenheiro Ali afirma sentir-se traído pelo governo iraniano. Ele reconhece que se opõe ideologicamente ao regime, mas que desejou nos últimos três dias que a possibilidade de seu país ter abatido o avião não se confirmasse. Não queria acreditar que os líderes tinham escondido durante esse tempo sua responsabilidade na tragédia.
— O mais horrível é que, se esse fosse um voo local, nós provavelmente nunca seríamos informados de que eles fizeram isso. Só estamos sabendo porque havia uns poucos cidadãos estrangeiros. Apenas por isso eles não conseguiram esconder — afirma, sem conseguir disfarçar sua revolta no tom de voz.
Ele  comparou a situação política com a de uma família na qual pais batem em seus filhos e os tratam mal e, enquanto isso, os iranianos veem seus colegas canadenses, com pais adotivos (uma vez que algumas das vítimas eram iranianos de nascimento, com dupla cidadania) importando-se com seus filhos.
— Nos últimos dias estamos vivendo um clima de vingança. E o general que foi à televisão anunciar, com muito orgulho, que a vingança tinha sido executada já deveria saber naquele dia que um míssil atingiu um avião por engano e não falou nada. Nenhum americano morreu na vingança; ele sabia que os únicos mortos eram os 176 que estavam naquele avião — completa.
O Globo

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